Google+ Followers

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Grande texto do Jorge Amaro

Editei e consegui colocar no Correio do Povo um belíssimo texto do Jorge Amaro onde ele fala do contato com a escuridão. Curtam a reflexão deste grande amigo:


                                     Dialogando com a escuridão

Quando eu era um menino, lá em Mostardas, tinha um senhor cego que era padeiro. Sempre que eu ia à escola, enxergava-o indo para a padaria em seu diário cotidiano de quem labuta. Aquilo angustiava demais, transmitindo-me um grande medo. Como era possível alguém conviver na escuridão, sem enxergar nada? Tinha uma lenda popular por lá que dizia que as borboletas soltavam um pó causador da cegueira. Era eu ver uma borboleta para sair correndo pois ser cego era o fim de tudo.

Bom, o tempo passou e estou hoje na vice-presidência do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência, tendo como parceiro de gestão justamente um cego. O Roberto Oliveira, como todos aqueles que têm deficiência, me ensina todo dia. Quantos medos cultivamos em nossa infância e permanecem por toda nossa vida pela falta de oportunidade de enfrentá-los?

Nas ultimas semanas por diferentes problemas, tenho convivido com a falta de luz elétrica. Dizem que é carma de viamonense. Quem me conhece, sabe meu nível de distração. Já esqueci terno em hotel, notebook em auditório e carteira com todo o salário em caixa eletrônico. Sem falar em chaleira no fogo todo dia ou ferro na tomada. Isto me impede de acender velas quando falta luz pois me conheço o suficiente.

Por alguns dias, fiquei dialogando com a escuridão. E, por incrível que pareça, aprendi com ela. Acostumamos a estar confinados em luzes e equipamentos eletrônicos e, às vezes, abandonamos lugares distantes das cavernas de nossa alma. E a escuridão me desacelerou, onde pude perceber outras coisas, como reencontrar medos, desejos e amores estranhos. Aquilo que na infância foi objeto de temor profundo, agora me ensina a perceber o mundo com outras formas. Lembro-me da beleza da poesia de Garcia Lorca, que destaca o poeta como um médium da Natureza-mãe que explica sua grandeza por meio das palavras. No escuro, percebo a magnitude da palavra que a claridade me impede de sentir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário